segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

QUANDO EU NASCI - JOSÉ RÉGIO

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...


Fonte: http://www.triplov.com/poesia/jose_regio/quando_eu_nasci.htm
Neste poema podemos perceber que Régio compara os acontecimentos do seu nascimento com o nascimento e morte de Cristo, evidenciando em mais uma de suas obras a inquietação que o leva a escrever, ou seja, seu objeto de escrita: a sua religiosidade. Pois, este autor que "crer não crendo" em Deus , está sempre em busca de provas concretas para crer na existência do Absoluto, e ao fazer está análise ele percebe que tanto na nascimento quanto na morte de Cristo aconteceram coisas extraordinárias, as quais não aconteceram nem a ele e nem poderia a nemhum outro simples ser humano.
Assim,Régio prova pra si mesmo a soberania de Cristo.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Fado português


O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.


Fonte: http://www.triplov.com/poesia/jose_regio/fado_portugues.htm

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Cristo (José Régio)


Quando eu nasci, Senhor! já tu lá estavas,
Crucificado, lívido, esquecido.
Não respondeste, pois, ao meu gemido,
Que há muito tempo já que não falavas.

Redemoinhavam, longe, as turbas bravas,
Alevantando ao ar fumo e alarido.
E a tua benta Cruz de Deus vencido,
Quis eu erguê-la em minhas mãos escravas!

A turba veio então, seguiu-me os rastros;
E riu-se, e eu nem sequer fui açoitado,
E dos braços da Cruz fizeram mastros...

Senhor! eis-me vencido e tolerado:
Resta-me abrir os braços a teu lado,
E apodrecer contigo à luz dos astros!
Sendo Régio um autor religioso que "crer não crendo", e vive em constante busca de respostas para dúvidas sobre Deus e sua soberania, neste poema fala sobre Cristo e a necessidade de ouvi-lo. De ouvi-lo pra provar que de fato este ainda vive, pra provar a si mesmo que Deus existe.