quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

José Régio



Publicados os Poemas de Deus e do Diabo, Régio tem em
mente dar continuidade à temática religiosa. Para tal, vai
reunindo poesias em dois cadernos que intitula de Novos
Poemas de Deus e do Diabo. O projecto sucessivamente
alterado, nunca se concretiza. Muitos desses poemas vão
dar origem à obra As Encruzilhadas de Deus; os restantes
são inseridos em obras poéticas publicadas mais tarde.

Fonte: http://cvc.instituto-camoes.pt/joseregio/c1.html

IGNOTO DEO


Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!

Fonte: http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaPortuguesa/Modernismo/Jose_Regio_poemas.htm

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Ícaro - José Régio

A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

Fonte:http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=61

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Amor e a Morte


Canção cruel
Corpo de ânsia.
Eu sonhei que te prostrava,
E te enleava
Aos meus músculos!

Olhos de êxtase,
Eu sonhei que em vós bebia
Melancolia
De há séculos!

Boca sôfrega,
Rosa brava
Eu sonhei que te esfolhava
Pétala a pétala!

Seios rígidos,
Eu sonhei que vos mordia
Até que sentia
Vómitos!

Ventre de mármore,
Eu sonhei que te sugava,
E esgotava
Como a um cálice!

Pernas de estátua,
Eu sonhei que vos abria,
Na fantasia,
Como pórticos!

Pés de sílfide,
Eu sonhei que vos queimava
Na lava
Destas mãos ávidas!

Corpo de ânsia,
Flor de volúpia sem lei!
Não te apagues, sonho! mata-me
Como eu sonhei.

Fonte: http://www.triplov.com/poesia/jose_regio/amor_morte.htm

Conhecendo mais sobre o autor



José Régio foi o professor, o poeta, o romancista, o dramaturgo, o ensaísta, o crítico, o memorialista, o diarista, o polemista, o desenhista, o coleccionador de antiguidades, o cidadão atento e empenhado... - componentes que, reunidas, dão o retrato de corpo inteiro do indivíduo e a verdadeira dimensão do Homem-Artista, "diverso e uno".

Fonte: http://cvc.instituto-camoes.pt/joseregio/

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sabedoria - José Régio


Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . .
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=65


Percebe-se no poema acima que a sabedoria,título da obra, vem com as esperiências: alegrias, tritezas, dificuldades, frustrações vividos pelo homem, lhe tirando as vezes as esperanças e os fazendo entender a brevidade da vida, que tudo passa por mais difícil que pareça ser. E que a vida e a morte se separa por um fio de existência. Mas o que importa é a intensidade das coisas vividas no presente.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Poema escrito no 49° aniversário de sua mãe - José Régio

Vale a pena deixar aqui uns versos quase íntimos que escreveu no 49º aniversário de sua mãe :


Que o filho lhe mal pagava
Queixou-se-me certa mãe.
-Nem a vida lhes chegava,
Se os filhos pagassem bem !...

Quem tem um filho apartado,
Sofre com dois corações :
Um, tem-no em si bem fechado;
Outro... lá longe aos baldões.

Cria uma mãe seu menino:
Cresceu... seguiu novos trilhos.
- E é para esse destino
Que as mães dão azas aos filhos !

Minha mãe, se eu te perder,
Farei de branco o meu luto :
Que é Santa toda a mulher
Que dá poetas por fruto !

Fonte: http://www.rancho-da-praca.com/jose_regio/jose_regio.htm

Dedicatória para o pai - José Régio

Em uma folha solta, encontrada na sua casa, com letra apressada e emendas, José Régio fez estes versos dedicados ao pai, falecido em 24.04.1957, versos depois incluídos em "Colheita da Tarde" :

Foste simples, banal,
Bom, com defeitos, jovial,
E tão pegado à vida,
Que ainda, velho, velho, a não podias crer vivida.

Viveste para as coisas deste mundo,
Que seria melhor
Se o pudesses fazer conforme o teu humor.

Não é por ser teu filho que sou triste,
Demoníaco, angélico, diferente,
Descontente, nevrótico, perverso.

Mas se algo, em mim, resiste
De humildemente humano,
Amigo de viver conforme vai
Vivendo a gente consoante o ano...

A ti o devo, pai !
A ti o devo, se nasci.
E a ti o devo, se inda não morri.

Fonte: http://www.rancho-da-praca.com/jose_regio/jose_regio.htm

Narciso - José Régio


Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho!


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=66#ixzz17q6vkpsX

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Soneto de amor - José Régio

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

Epitáfio para um poeta - José Régio




As asas não lhe cabem no caixão!
A farpela de luto não condiz
Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.
Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Nao vêem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?
Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pérola solta - José Régio

Sem que eu a esperasse,
Rolou aquela lágrima
No frio e na aridez da minha face.
Rolou devagarinho...,
Até à minha boca abriu caminho.
Sede! o que eu tenho é sede!
Recolhi-a nos lábios e bebi-a.
Como numa parede
Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,
Na boca me cantou,
Breve como essa lágrima,
Esta breve elegia.

Cântico Negro - José Régio


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
Fonte: http://www.releituras.com/jregio_menu.asp