sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Epitáfio para um poeta - José Régio




As asas não lhe cabem no caixão!
A farpela de luto não condiz
Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.
Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Nao vêem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?
Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!

Um comentário:

  1. A morte para alguns é liberdade, liberdade tal que não dispomos nesta vida, e o poeta que fala daquilo que lhe incomoda, sendo um fugitivo até de si próprio só a encontra na morte. Mas até nestas circunstancias alguns os tentam prender com vestes, calcados e luto, quando este deveria ir da mesma forma que viera para brilhar eternamente como estrelas.

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